Estamos vivendo em um século que a enxurrada de informações se torna cada vez mais turva pelo excesso. Essa enxurrada nos aponta a necessidade de treinar o olhar para uma cultura que se constitui, cada vez mais, de imagens multiplicadas. No entanto, alerta-se que: “se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” (Livro dos Conselhos).
É certo que as novas tecnologias nos ajudaram a ampliar a capacidade do olhar, pois inventaram binóculos, lunetas, microscópios, raios x, scanners, impressoras, câmeras fotográficas, vídeos, DVDs, CD-Roms e uma infinidade de outros apetrechos. Porém, desenvolveu-se também uma espécie de miopia que confunde, embaraça esse olhar e cria para ele diferentes pontos de observação, sejam eles espelhos fiéis ou simulacros imperfeitos do mundo natural.
Observa-se então que, a originalidade não está, no entanto, na urgência em se diferenciar dos outros ou em produzir categoricamente o novo, mas em agarrar-se às raízes tanto de nós mesmos quanto das coisas, nos diz Carol Garcia.
Na mesma esteira, José Saramago, poeta e teatrólogo, vencedor em 1998 do prêmio Nobel de Literatura, nos aponta que, apesar das contribuições dos avanços tecnológicos em proporcionar à ampliação do olhar, a análise, a reflexão, a crítica, a dúvida encontram-se bloqueados, talvez porque não conseguimos nos chocar, nos sensibilizar com as imagens, mas não porque de repente elas não estão nos mostrando algo, mas porque são muitas imagens e, a maioria das imagens que vemos estão fora de contexto, pois as imagens não querem nos dizer algo, mas nos vender algo. “Na verdade, a maioria das coisas que vemos, sejam revistas, jornais, televisão, tentam nos vender alguma coisa, mas a necessidade fundamental do ser humano é que as coisas comuniquem um significado, um sentido”. (Carvalho; Jardim, 2001).
Saramago argumenta ainda que, a enxurrada de informações nos coloca diante de muitas coisas em excesso, a única coisa que não temos é tempo suficiente e, ter tudo em excesso significa que não temos nada.
Atualmente, somos incapazes de prestar atenção nas imagens, somos incapazes de nos emocionar com as imagens. Atualmente, as histórias precisam ser extraordinárias para nos surpreendermos com elas, pois as histórias simples não conseguimos mais enxergá-las. Vivemos todos numa espécie de áudio-visual, onde sonhos se multiplicam, onde as imagens se multiplicam e onde nós mais ou menos vamos nos sentindo perdidos. Perdidos, em primeiro lugar, de nós próprios e em segundo, perdidos em relação ao mundo e, acabamos circulando aí sem saber muito bem o que somos, para que servimos e para onde vamos. (Carvalho; Jardim, 2001)
No conceito de Regis Morais, devido às pessoas serem febrilmente invadidas pelas imagens, acabam se rendendo ao feitiço dos objetos, de possuir objetos. A conseqüência é que, segundo especialistas o objetivo pelo consumo desvairado de coisas excita a ambição, e esta instala a frustração. Há os que não podem seguir o ritmo terrível do consumo, mas assumem suas impossibilidades. Mas existem aqueles que, não podendo acompanhar a maratona do possuir, transformam a fragilidade que suas frustrações impõem num feroz potencial de agressividade.
Na realidade, é um único quadro fundamental com diferentes modos de se responder a ele. Muitos tentarão proteger sua vida, sua carteira – e esta será também uma maneira de se afirmar, de trocar a própria identidade. Mas outros, em grande número, agredirão - para roubar ou subjugar – por estarem transidos de medo, temerosos da sua própria fragilidade. (Regis, 1981)
O medo pressupõe ameaças, situação favorável ao crescimento da violência. Entretanto, torna-se cada vez mais difícil abordar o tema da violência, uma vez que a sua realidade percorre desde as violências vermelhas - sangrentas – até as violências brancas - como o emprego de linha-de-montagem que, nas grandes indústrias, transforma trabalhadores em prisioneiros de um campo de concentração habilmente disfarçado.
Vale lembrar também, o filósofo e agitador social, Guy Debord, que esclarece em seu livro A Sociedade do Espetáculo que, a objetividade de possuir objetos, a alienação do espectador em favor do objeto contemplado – o que resulta de sua própria atividade inconsciente – se expressa assim:
Quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo. Em relação ao homem que age, a exterioridade do espetáculo aparece no fato de seus próprios gestos já não serem seus, mas de um outro que os representa por ele.” (Debord, 1992)
A origem do espetáculo, segundo Debord, é a perda da unidade do mundo e a expansão gigantesca do espetáculo moderno revela a totalidade dessa perda: “a abstração de todo trabalho particular e a abstração geral da produção como um todo, se traduzem perfeitamente no espetáculo, cujo modo de ser concreto é justamente a abstração” (Debord, 1992). No espetáculo, argumenta Debord, uma parte do mundo se representa diante do mundo e lhe é superior. O espetáculo nada mais é que a linguagem comum dessa separação. O que liga os espectadores é apenas uma ligação irreversível com o próprio centro que os mantém isolados. O espetáculo reúne o separado, mas o reúne como separado.
O espetáculo na sociedade corresponde a uma fabricação concreta da alienação. A expansão econômica é sobretudo a expansão dessa produção industrial específica. O que cresce com a economia que se move por si mesma só pode ser a alienação que estava em seu núcleo original. Porém, o homem que se vê separado de seu produto, produz cada vez mais e com mais força todos os detalhes de seu mundo. Assim, vê-se cada vez mais separado de seu mundo. Quanto mais sua vida se torna seu produto, tanto mais ele se separa da vida, diz Debord.